Uma das coisas que tentei assimilar aqui nas Filipinas foi a economia. É uma matéria que gosto muito e que é bem interessante de se aprender na prática, principalmente pra mim que sei tão pouco.
A economia aqui nas Filipinas é baseada em arroz, tabaco e outros produtos agrícolas além da industrialização de produtos e, porque não, do tráfico de drogas já que as ilhas fazem parte dos pontos estratégicos de distribuição da Ásia. Cerca 39,5% dos filipinos vivem abaixo da linha da pobreza (menos de 1 dólar ao dia) e mais de 55% vivem com menos de 2 dólares ao dia.
Em questão de pobreza, ela é mais gritante porque não se vê classe média praticamente. Você vê gente muito pobre ou gente muito rica, num quadro geral claro. Pelo que eu vivenciei aqui, acredito que ascender socialmente é muito mais difícil talvez pela corrupção e aquele protecionismo, talvez pelo próprio modelo econômico ou muito provavelmente pelos dois.
O modelo econômico que eu falo é o chamado “Sachet Economy”. No começo, achei muito engraçado ver que eles vendiam sachets de shampoo, creme hidratante, pasta de dente, maionese, salgadinho, tudo. E pensei: “Aff, quem vai querer comprar isso? É tão sacal abrir esses pacotinhos...”. Aqueles sachets que você ganha de amostra grátis e que não podem ser vendidos separadamente, aqui eles vendem 1 a 1.
Depois de ver no supermercado, percebi que em praticamente qualquer casa você pode encontrar uma “Sari-Sari” store. Essas “lojas” que ocupam um cômodo da casa e você pode fazer seu pedido da janela enquanto está andando na rua, esperando o jeepney ou no intervalo da escola. Elas são convenientes para quem passa porque você encontra praticamente tudo (suprimentos básicos principalmente enlatados que é o que os filipinos consomem freqüentemente, itens de higiene pessoal, alguns cacarecos tipo bijouterias, destilados, cigarros que inclusive podem ser comprados individualmente...) em pequenas porções pra consumir na hora, individualmente. Elas são convenientes para quem vende também já que você não tem que alugar outro lugar para ter o seu próprio negócio, não precisa de um espaço grande já que pode oferecer variedade sem necessariamente expor grandes embalagens em prateleiras e não necessita de um grande capital de giro.
Mais do que isso, esses sachets representam a possibilidade de se adquirir bens de consumo para a extensa parte da população que possui renda irregular e incerta. Conseguir fazer o cara que tem dinheiro comprar o seu produto, é fácil. Agora, adaptar seu produto e seu processo de fabricação e embalagem para que os milhões de caras que juntaram os 5 pesos de ontem com os 5 pesos de hoje decidirem comprar seus 10g por 10 pesos (~R$0,50) num sachet, aí sim falamos de negócios nas Filipinas.
Eu soube e depois fui ler mais algumas coisas a respeito que o modelo da Unilever aqui nas Filipinas é padrão de referência mundial em como atingir a população de baixa renda. E de fato, boa parte do que você vê por aqui é Unilever. De sachet de shampoo Sun Silk (Seda) por 6 pesos até palito de sorvete Selecta (Kibon) por 5 pesos (2 mordidas e acabou!).
Outro exemplo interessante é de uma companhia de telefonia celular. A Smart permite que você revenda seus créditos pré-pagos que não utilizou e a cada x créditos que você vende, você recebe uma comissão.
Legal. Não é ruim pensar que esse modelo introduziu higiene pessoal na vida de uma parte da população que dificilmente tomaria banho com shampoo ou escovaria os dentes com pasta anti-cáries se esses fossem vendidos somente em “bulk” ou embalagens regulares. E até alguns itens de luxo também.
Entretanto, a primeira impressão que tive quando cheguei aqui foi na quantidade de lixo que existe nesse país. É hábito de quase todo filipino abrir o saquinho plástico, usar e jogar no chão, quase não se vê lixeiras na rua ou até mesmo dentro de shoppings centers, por exemplo. Imagina quantos sachets não são jogados na rua todos os dias! Imagine por que eles sofrem tanto com enchentes em Manila. Esse é o primeiro problema que você percebe, tanto ambiental quanto social porque é aquela mentalidade que a gente conhece de tirar o lixo pra fora de casa, pois quero me ver livre dele até o dia que chove e ele volta naquela água bacana junto com o esgoto e tudo. Ou, vou queimar meu lixo pensando que também estarei livre dele enquanto ele próprio se instala no meu pulmão.
Um pouco mais fundo que isso, é o fato de que numa economia assim as pessoas estão mais vulneráveis a compras por impulso e, de certa forma, acomodadas com sua situação. Posso estar sendo um pouco equivocada, mas o que percebi dos filipinos em geral, é que eles não têm ambição ou vontade mesmo de trabalhar e ter um pouco mais. É claro que para afirmar isso com absoluta certeza eu precisaria estudar muito a cultura, mas é essa a minha impressão. De que a pobreza é mesmo social, e eles mesmos alimentam esse modelo econômico onde eles pagam muito mais caro pelo que consomem já que não se beneficiam de economias de escala, mas consomem e vivem assim meio que na inércia, sem se perguntar muito ou querer muito. Seja tocando sua sári-sari store que é igual a do seu vizinho e do vizinho do vizinho... Seja como motorista de triciclo que é o que mais da metade da população faz... Seja realizando qualquer tipo de atividade óbvia e comum.
Bom, uma iniciativa legal que surgiu a partir de tanto lixo foi uma cooperativa de mulheres em Manila. Elas se uniram para fabricar bolsas e outros acessórios a partir de embalagens usadas de sucos, salgadinhos, balas, etc. Primeiro, elas pagam os estudantes das escolas para recolherem essas embalagens depois costuram as bolsas e vendem para uma loja famosa de souveniers filipinos além de possuírem uma parceria com alguma organização canadense que as ajuda a exportar os produtos pro Canadá, França, EUA... Confiram em BAZURA BAGS.COM, bazura em tagalog significa lixo.
O que eu estou tentando fazer aqui em Damascus é ajudar a organizar uma cooperativa para os pais das crianças do DLC de forma que eles realizem alguma atividade que proporcione renda e que os ocupe no longo tempo livre que eles têm, é desesperador ver todas as mães das crianças sentadas durante a manhã inteira, sem fazer nada enquanto esperam as atividades do DLC acabarem.
Para isso, tive que estudar o que é uma cooperativa e como estruturar uma. Fiz uma reunião com as mães (porque os pais raramente estão interessados) e discutimos tópico a tópico os aspectos da cooperativa, não é fácil manter a atenção delas e a Tina me ajudou na tradução. Agora estou a procura de algum contato com a Bazura Bags e também com outra fundação Ecoist (ECOIST.COM) do México,Peru e Chile que também fazem bolsas e chegam a vendê-las por 200 dólares cada.
Esse seria um dos últimos projetos que eu faria por aqui e gostaria muito que desse certo. Foi muito motivador depois de tentar explicar estrutura e mercado, criar uma missão para a cooperativa e chegar à conclusão de que todas essas mães querem a mesma coisa: oferecer uma vida melhor para os filhos.
Aí eu falei de visão e perguntei se elas tinham a ambição de serem independentes financeiramente dos seus maridos. A Tina foi traduzir, pensou bem e falou: “Como assim, Ate Mabel?”.
Eu expliquei melhor e adicionei: “Significa alguma coisa pra vocês serem vistas como exemplo para outras mulheres da comunidade, ou até mesmo das Filipinas? Vocês querem ser vistas como uma cooperativa de exemplo para que outras mães possam se inspirar e fazer o mesmo?”. Elas deram risada e ficaram empolgadas: “Yes!Yes!”. Resumindo: no final, só faltou todo mundo queimar o sutiã. Hahaha.
Espero que vocês tenham entendido esse post, porque eu sei que não tenho gabarito para ficar discutindo economia e sociedade mas achei que seria legal compartilhar as minhas impressões sem pretensão alguma de estar falando a verdade absoluta.
